quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Brasil de Debret III - Fragmentos da história política e religiosa

I. - Jean Baptiste Debret (1768 - 1848)


Pintor e desenhista, Debret foi um dos principais personagens da Missão Artística Francesa que aportou no Brasil a 26 de março de 1816, com a finalidade de implantar aqui uma Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O grupo era chefiado por Joachim Lebreton e Debret o integrava como pintor histórico.


II. - Debret no Brasil



Autoretrato do autor
Quando o grupo chegou ao Brasil, em 1816, o ambiente político estava um pouco conturbado com o falecimento de Dona Maria I, uma revolução em Pernambuco e situação instável na Europa. Mesmo assim Dom João VI assinou um decreto se comprometendo com o pagamento aos artistas franceses para que eles implantassem então a Escola Real de Artes e Ofícios. Entretanto, as outras providencias práticas ficaram suspensas.

Foi apenas em dezembro de 1826, com Dom Pedro I, que foi finalmente inaugurada a Academia Imperial de Belas Artes. 

Durante todo o tempo que ficou no Brasil, Debret fez várias viagens onde documentou a vida cotidiana do país, e voltando para a Europa fez a publicação de seu famoso livro "Viagem Pitoresca e História ao Brasil"






III. - Organização da Obra de Debret - "Viagem Pitoresca ..."



Debret organizou a sua publicação da "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil" em três tomos, conforme descrevemos a seguir:


Tomo I - A situação do índio brasileiro;

Tomo II - Atividade do povo civilizado do Brasil sob o jugo português;
Tomo III - História política e religiosa do Brasil;


Esse post se refere ao terceiro tomo,  História política e religiosa do Brasil e traz apenas fragmentos do livro. A edição da Itatiaia é muito interessante e contém os três tomos e todas as pranchas. Recomendamos a sua aquisição para aqueles que gostam de história do Brasil.



IV - Comentários de Debret sobre a História política e religiosa do Brasil



Debret chegou no Brasil quando da morte de Dona Maria e logo presenciou a aclamação de Dom João VI como Rei de Portugal e do Brasil. De acordo com as observações de Debret, os brasileiros sentiam-se humilhados por terem sido durante tanto tempo escravos da arbitrariedade e da opressão dos governos portugueses. Entretanto, souberam reconhecer a importância da vinda de Dom João VI impulsionando o desenvolvimento até então adormecido da colônia. No período que a corte portuguesa permaneceu no Brasil de 1808 a 1821, teve a  criação da imprensa nacional, fábrica de pólvora, Banco do Brasil, e a reorganização do sistema político-jurídico do país. 



Prancha 01 - Vista do largo do Palácio do Rio de Janeiro

Pela lógica, a corte portuguesa deveria se instalar em Salvador que contava com uma infra-estrutura melhor. Entretanto, por motivos de segurança, era mais difícil o ataque ao Rio de Janeiro, a corte acabou se instalando no Rio. O povo da cidade recebeu bem a nobreza apesar do  ponto de conflito posterior, devido a lei da aposentadoria real, que obrigava o proprietário de qualquer casa a alugá-la para uma pessoa designada pelo governo.


No período, Debret testemunhou o reinado e o retorno de Dom João VI  para Portugal,  a declaração de independência brasileira por Dom Pedro I e o seu esforço na melhoria do país,  e finalmente a sua abdicação em favor de Dom Pedro II. 

A independência do Brasil iria  abrir a possibilidade de progresso para os nascidos aqui. Até então os melhores empregos na administração pública eram reservados aos portugueses com a desculpa que esses tinham melhor formação. 



Instrução 



No Rio os seminários de São José e São Joaquim eram os responsáveis pela educação dos rapazes. Com a chegada da corte a instrução para as mulheres foi liberada e elas passaram a aprender a ler, principalmente para poderem utilizar os livros de oração.



Política



O sistema liberal da contituição brasileira outorgada pelo imperador aos brasileiros e jurada solenemente em 25 de março de 1824, deu grande impulso ao desejo muito louvável, dos brasileiros, de ingressarem e brilharem na carreira política. Com isso muita gente se sentiu motivada a buscar as melhores referências européias e muito na civilização francesa, indo estudar fora e também aprendendo a língua.  



Culto Religioso / Procissões

As cerimônias religiosas introduzidas no Brasil pelos portugueses continham um pouco de exagero devido a necessidade de impressionar os índios com imagens esculpidas de grandes proporções. 

Daí se originou as procissões brasileiras, imitando as espanholas. No Rio de Janeiro, essas cerimônias tornaram-se uma oportunidade de luxo e exibição para as pessoas de posse que se postavam nos balcões das casas vestindo trajes elegantes para ver  o cortejo. As muitas irmandades existentes, também procuravam se distinguir umas das outras com a utilização de ornamentos muito ricos. 


Prancha 27 - Estátua de São Jorge e seu cortejo precedendo a procissão do Corpo de Deus



No Rio de Janeiro existiam oito procissões principais: A de São Sebastião, 20 de janeiro; a de Santo Antônio, no dia das cinzas; a do Nosso Senhor dos Passos, na segunda quinta-feira da Quaresma; a do Triunfo, na sexta-feira que precede o Domingo de Ramos; a do Enterro, na sexta-feira santa; a do Corpo de Deus, que se repete na oitava, e finalmente a da Visitação de Nossa Senhora, a 2 de Julho;



Origem da Santa Casa da Misericórdia



"A Santa Casa da Misericórdia deve sua existência a um brasileiro falecido no Rio de Janeiro, mais ou menos em 1730. Foi por devoção que ele acrescentou ao terreno a doação de sua fortuna, suficientemente considerável para que se empreendesse a construção de uma igreja e de uma prisão para mulheres. 

O edifício, demasiado espaçoso para o número, felizmente restrito de detidas, foi transformado pelo governo em hospital militar no qual se admitiam também alguns doentes pobres.

Em um segundo impulso caridoso, um casal, num movimento de generosidade simpática, consagrou a totalidade de uma fortuna colossal à fundação de uma Irmandade da Misericórdia, que existe ainda hoje nas bases da antiga organização. As cláusulas de admissão à confraria consistiam na doação prévia de uma importância e na obrigação de pagar uma contribuição anual prevista nos estatutos. O espírito de associação e o amor próprio fazdem o resto."



Acontecimentos políticos - O Reinado de Dom João





"Em 1808, a chegada do corte de Portugal ao Rio de Janeiro trouxe aos brasileiros a esperança de grande prosperidade. Doze dias após sua chegada, Dom João abriu os portos ao comércio estrangeiro, criou escolas militares. Entretanto, o monarca estava cercado por uma corte envelhecida." 


"Dom João VI, filho carinhoso e respeitoso, tivera um irmão destinado a ser o herdeiro da coroa. Com isso resignou-se a nada ser, o que era atenuado por sua vocação religiosa e estava no retiro claustral."

"Como homem, foi sem dúvida dotado de algumas qualidades apreciáveis num simples particular, mas como rei não tinha a menor noção da ciência de governo." 

O ministério de Dom João não era competente e não soube distinguir as necessidades de um novo reino. Exceção pode-se fazer a alguns nomes como: Dom Rodrigo, Conde de Linhares, Dom José, Cavaleiro de Araújo, Conde da Barca, Marquês de Aguiar.

Dom João VI poderia ter-se declarado Rei do Brasil e por aqui ficado, já que muitos ainda o idolatravam. Entretanto, o rei bonachão iria mais cedo ou mais tarde ser vítima da trama da nobreza portuguesa que estava ansiosa por ser independente e ver o Brasil novamente como colônia suprindo às necessidades portuguesas.


Em 25 de abril de 1821, Dom João VI embarcou de volta para Portugal. Os navios com o rei e sua comitiva entraram no porto de Lisboa em 3 de julho.

Em Portugal Dom João foi obrigado a jurar a constituição liberal elaborada pela corte portuguesa retirando vários poderes das mãos do Rei. Essa constituição durou apenas três meses e uma grande confusão entre monarquistas absolutistas e liberalistas se formou em Portugal. Dom João morreu infeliz em Portugal.



Dom Pedro I, primeiro Imperador do Brasil 

"Governando havia cerca de um ano, o novo regente desenvolvia dia a dia as virtudes de um príncipe reformador; revoltado desde a idade da razão contra os abusos da  corte de seu pai, quis, logo de início, tudo ver com os próprios olhos. Ia, quando menos esperavam, visitar as várias repartições públicas entre elas a Alfândega cujas falhas já conhecia." 

"A natureza que foi pródiga com Dom Pedro, dotara-o de duas qualidades importantes: o espírito e a memória. Tinha uma alma elevada, muita retidão e o desejo sincero de fazer o bem, por amor e por amor-próprio;"

Os portugueses porém tinham outros planos, " uma fragata portuguesa encarregada de levar o príncipe para a Europa, veio trazer a Dom Pedro, oficialmente o decreto de recolonização, expedido pelas cortes".

Incitado pelos brasileiros, Dom Pedro, "com o título de defensor perpétuo do Brasil, põe-se a sua frente, expulsa as tropas portuguesas e proclama a independência do território brasileiro."

Não havia Constituição no Brasil, foi Dom Pedro que reuniu deputados de diferentes províncias de seu império para essa tarefa. Entretanto, dois sentimentos imperavam nos representantes: O de expulsar os portugueses do território brasileiro e o de proclamar a república. Dom Pedro, para salvar o seu poder, dissolveu a assembléia constituinte. 

Entretanto, fiel a sua promessa, Dom Pedro redigiu uma Carta Constitucional, baseada nos princípios de um liberalismo justo e ofereceu-a à nação a 11 de dezembro de 1823. 

Dom Pedro, mal cercado, procurou em vão fazer prosperar o Brasil; mudando de ministros, encontrava sempre homens fracos ou corrompidos, igualmente perigosos. Cansado de governar entre intrigas contínuas, Dom Pedro foi se isolando cada vez mais. 

Depois de uma viagem a Minas, Dom Pedro encontrou o Rio de Janeiro em uma balbúrdia geral com várias queixas da influência usurpadora dos portugueses no Brasil. A cidade foi ficando dividida entre os servidores do soberano e a população  contra o governo. Dom Pedro tentou mudar a situação nomeando um ministerio liberal, o que não funcionou. Depois de dez dias, Dom Pedro trocou-os por um ministério absolutista, e foi uma desordem geral.

A abdicação

"Com a desordem, o comandante militar, Lima, veio em nome do povo solicitar do imperador a reintegração do ministério patriótico. Dom Pedro achou mais digno recusar e preferiu abdicar em favor de seu filho, que lhe sucedeu no trono do Império do Brasil com o nome de Pedro II."


Pracnha 51 - Aclamação de Dom Pedro II, segundo imperador do Brasil

V. - Algumas Pranchas Ilustrativas do livro de Debret


E 103 - Vendedores de Flores à porta de uma Igreja

"O hábito brasileiro de enfeitar os cabelos com flores naturais pôs na moda o cravo. Ele é um galanteio requintado que quando se manda a uma senhora, significa que ela soube prender um coração. Se ela aceita e coloca na cabeça, significa que é uma resposta positiva." 


Na prancha um criado de uma casa rica, está parado a frente da porta de uma igreja para vender flores em benefício do patrão. Por conta própria ele acrescenta frutas como banana e coco para auferir algum lucro em proveito próprio. 





Prancha 08 - vendedores de flores




E 118 -Víveres levados à cadeia pela irmandade do Santíssimo sacramento


"Se a legislação portuguesa, em vigor no Brasil, dispensa o governo da alimentação dos presos, sistema bárbaro que obriga o indigente privado de perantes ou amigos a recorrer à caridade dos transeuntes para a sua subsistência, sua sorte deplorável é entretanto suavizada pela filantropia da irmandade da Santa Casa de Misericórdia, que fornece diariamente dois enormes caldeirões de sopa com cabeças de bois reservadas especialmente para esse fim, e mais um suplemento de farinha de mandioca. Essa providência caridosa recebe diariamente seu tributo de louvores ao encontrarem os distribuidores a fila de prisioneiros acorrentados carregando os gêneros alimentícios sob a escolta da guarda da polícia."



Prancha 22 - Víveres levados à cadeia ...


E 123 - Uniforme dos Desembargadores


"A corte suprema sediada no Rio de Janeiro, era um tribunal composto de um presidente, regedor de justiça, um chanceler e dezoito magistrados com o título de desembargadores, oito dos quais agravistas e os demais extravagantes; a esses magistrados é confiado o andamento dos processos."

"Na prancha, os desembargadores descem da carruagem à porta do Palácio da Justiça, na Rua do Lavradio. Um criado os espera com um saco de veludo destinado à guarda dos processos, a fim de acompanhá-los às salas."



Prancha 27 - Uniforme dos Desembargadores








E 128 - Desembarque da Princesa Leopoldina


"No centro da prancha ergue-se majestosamente o Convento de São Bento, cujas janelas, são guarnecidas de ricas tapeçarias de seda. Todo o resto do platô está inteiramente ocupado por uma multidão de curiosos de todas as classes, ansiosos por apreciarem o desembarque pelo lado do mar, e a marcha do cortejo na rua direita, do lado da cidade." 




Prancha 32 - Desembarque da princesa real Leopoldina




E 133 -  Aclamação de Dom João VI

"O momento representado é quando o rei acaba de responder "Aceito", e o entusiasmo geral dos espectadores se manifesta pela aclamação "Viva el-rei, nosso senhor" e o gesto português de agitar o lenço. A bandeira real está desfraldada. O rei ocupa o trono, em grande uniforme, de chapéu na cabeça e cetro na mão, estando a coroa colocada numa almofada ao lado . À sua direita acham-se os príncipes Dom Pedro e Dom Miguel, este com a espada de condedstável desembainhada na mão."


Prancha 37 - Aclamação de Dom João



E 143 - Coroação de Dom Pedro I 


"À direita do quadro, Dom Pedro, em grande uniforme imperial, com a coroa à cabeça e o cetro na mão, acha-se sentado no trono, recebendo o juramento de fidelidade prestado em nome do povo pelo presidente do Senado da Câmara Municipal do Rio de janeiro, Lúcio Soares Teixeira de Gouveia. À esquerda do quadro vê-se, de pé na tribuna da corte, a Imperatirz leopoldina com sua filha Dona Maria da Glória. No trono pontifício, À esquerda do imperador, acha-se sentado o bispo, capelão-mor, oficiando com toda a solenidade."


Prancha 48 - Coroação de Dom Pedro, imperador do Brasil.



V - Finalização da obra de Debret


"Eis-me chegado à última página desta longa narrativa, que começa em 1816, no momento em que fomos chamados pelo soberano do Brasil para consagrar nossos esforços simpáticos ao brilho e à glória de seu trono, e que termina com  a entusiástica aclamação do menino rei, hoje governador do único império americano."

"Não vi eu, com efeito, os seis primeiros anos do reinado de Dom João VI, tímido fundador do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, decorerem sob a influência das formas feudais, cuja calma respeitosa não chegava a dissimular completamente, aos olhos do monarca temeroso, as nuvens do horizonte político que se acumulavam sobre a sua tríplice coroa ?"

"Não vi eu seu sucessor e filho, Dom Pedro, empunhar com confiança as rédeas do Estado, após a partida de seu pai, e empreender cheio de entusiasmo a fundação de um império e a prosperidade de um povo jovem ?"

" ... arrastado pelos funestos ventos da Europa, foi Dom Pedro forçado a abdicar em favor de seu filho, com apenas seis anos de idade."

"Pensei na minha idade que não me deixava esperança de servir o novo soberano, sujeito a uma longa tutela em virtude de sua juventude."

"Pensei que também tinha contas a prestar a minha pátria, a França, ..., foi com o império desses sentimentos que empreendi essa obra.

"Digne-se a Academia de Belas Artes acolher esta obra, objeto de um trabalho assíduo de sete anos, como um primeiro tributo oferecido por seu correspondente, cujos últimos dias serão consagrados a ligar, por uma permuta de homenagens e incentivos, o Brasil à França, a pátria de minhas saudades à pátria de minhas consolações!"


VI - Referências


Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil - Jean Baptiste Debret, Edição Itatiaia


VII - Outras Publicações

O Brasil de Debret I - Grupo Indígena
http://historiacomgosto.blogspot.com.br/2017/04/o-brasil-de-debret-i-grupo-indigena.html

O Brasil de Debret II - Grupo Escravos Negros
http://historiacomgosto.blogspot.com.br/2017/05/o-brasil-de-debret-ii-grupo-escravos.html

O Brasil de Debret III - Fragmentos da História política e religiosa
http://historiacomgosto.blogspot.com.br/2017/07/o-brasil-de-debret-iii-fragmentos-da.html





3 comentários:

  1. Muito interessante ,gostei muito e aspectos que desconhecia da História do Brasil Imperial.E vi que desde então já se formava a casta do Judiciário com suas casacas pretas e as tramas se sucedendo .

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  2. Texto muito interessante e bem ilustrado. A partir dele, alguns pormenores podem ser inferidos. Dom João VI e vários reis portugueses que o antecederam não punham a coroa na cabeça, mas sim numa almofada, em virtude de uma promessa religiosa feita por um monarca anterior. Dom Pedro I e seu filho usavam a coroa, o que representava um rompimento com a tradição lusitana.

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