terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Os Entrudos - Carnaval do século XVII ao século XIX

I - Entrudos



Na era cristã, a explicação etimológica para o termo «Carnaval» aponta para a palavra carnisvalerium (carnis de carne, valerium, de adeus), o que designaria o «adeus à carne» ou à «suspensão do seu consumo», em função da quadra seguinte: a Quaresma, em que a carne é abolida da alimentação na religião cristã.


A própria designação «Entrudo» – ainda muito utilizada entre nós, principalmente no meio rural –, do latim introitus (intróito), apresenta igual significado: o de introduzir, dar entrada, começo ou anunciar a aproximação da quadra quaresmal. Em Portugal, uma das primeiras referências ao Entrudo, encontra-se num documento datado de 1252, no reinado de D. Afonso III, embora não propriamente relacionado com as festividades carnavalescas, mas com o calendário religioso.

Na época de D. Sebastião, são várias as menções que salientam as brincadeiras do Entrudo, entre elas a do «lançamento de farelos», que nem sempre acabavam bem.«Entrudos» (ou «entruidos») é também o nome atribuído em diversos lugares aos próprios mascarados, consoante as regiões de Portugal.

In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.II Ed. Círculo de leitores

O costume de se brincar no período do carnaval foi introduzido no Brasil pelos portugueses, provavelmente no século XVII, com o nome de 'Entrudo. O registro mais antigo é de 1600.  

A brincadeira do entrudo, típica da região de Açores e Cabo Verde, consistia em um jogo em que as pessoas sujavam umas às outras com tintas, farinha, ovos e também atiravam água.

Cena de entrudo em 1880, em desenho de Angelo Agostini

Já na Idade Média, costumava-se comemorar o período carnavalesco em Portugal com toda uma série de brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia. Em algumas notava-se a presença de grandes bonecos, chamados genericamente de "entrudos".

A denominação genérica de Entrudo, entretanto, engloba toda uma variedade de brincadeiras dispersas no tempo e no espaço. Aquilo que a maioria das obras descreve como Entrudo, é apenas a forma que essas brincadeiras adquiriram a partir de finais do século XVIII na cidade do Rio de Janeiro. Mesmo aí, a brincadeira não se resumia a uma única forma. Havia, na verdade vários tipos de diversões que se modificavam de acordo com o local e com os grupos sociais envolvidos.

Atualmente, como explica o pesquisador Felipe Ferreira, em O livro de ouro do carnaval brasileiro, entende-se que existiam, no Rio de Janeiro do início do século XIX, duas grandes categorias de Entrudo: O Entrudo Familiar e o Entrudo Popular.

II - Os tipos de Entrudo


a) Entrudo Familiar


  • Acontecia dentro das casas senhoriais dos principais centros urbanos. Era caracterizado pelo caráter delicado e convivial e pela presença dos limões de cheiro que os jovens lançavam entre si com o intuito de estabelecer laços sociais mais intensos entre as famílias.
Brincadeira de Carnaval, Augustus Earle, Biblioteca Nacional da Australia

b) - Entrudo Popular


  • Era a brincadeira violenta e grosseira que ocorria nas ruas das cidades. Seus principais atores eram os escravos e a população das ruas, e sua principal característica era o lançamento mútuo de todo tipo de líquidos (até sêmem ou urina) ou pós que estivessem disponíveis. Além de que se os brancos também brincassem, os negros que estavam participando não podiam "mela-los" pois poderiam ser presos. 
                   
Carnaval, Jean Baptiste Debret, Viagem Pictórica ao Brasil


Obs: Entre esses dois extremos havia toda uma variedade de "Entrudos" que envolviam em maior ou menor grau grande parte da população dos principais centros urbanos do país.


III - A batalha contra o Entrudo



O entrudo foi proibido várias vezes no Brasil sem grandes resultados. A primeira vez foi logo em 1604, quatro apenas após a sua introdução na nossa terra.

A partir dos anos 1830, uma série de proibições se sucedem na tentativa, sempre infrutífera, de acabar com a festa grosseira.


Combatido como jogo selvagem, o entrudo continuou a existir com esse nome até as primeiras décadas do século XX e existe até hoje no espírito das brincadeiras carnavalescas mais agressivas, como a "pipoca" do carnaval baiano ou o "mela-mela" da folia de Olinda.

IV - Arraias, Tocantins


Nascida no tempo em que o ouro era elemento de cobiça, Arraias foi povoada a partir da descoberta de jazidas auríferas situadas no alto da Chapada dos Negros, distante 3 km da atual cidade. A partir de então, uma rica cultura foi desenvolvida e anos de história são revelados nos muros de pedras feitos pelos escravos, nas festas populares como o Entrudo e no belo casario em estilo colonial.(Turismo.to)


Casario de Arraias, Tursimo.To



O local chegou a ter 10 mil garimpeiros, sendo na sua maioria composta de negros. Arraias possui lindas planícies, cortadas por cursos d’águas. A cidade com suas ruas sinuosas e estreitas, pequenas ladeiras e antigas muralhas de pedras guarda muitas histórias. 

Localização de Arraias, dentro da demarcação vermelha

É a cidade mais alta do estado do Tocantins e a segunda cidade mais alta de toda a Região Norte do Brasil, estando situada a uma altitude média de 722,40 metros. Arraias é também a cidade mais fria do Tocantins e uma das mais frias de toda a Região Norte do país. Sua população estimada em 2004 era de 10 970 habitantes.

A distancia de Brasilia para Arraias é de 433 Km, e a viagem dura 5 horas. De Palmas para Arraias a distância é de 472 Km e o percurso dura 06 horas. 


IV - O Entrudo de Arraias, Tocantins


Atualmente o Entrudo, mais próximo de suas origens, é o que sobrevive na cidade de Arraias, estado do Tocantins, a 446 km de Palmas. A presença do Entrudo no Carnaval arraiano é tradição antiga, que vem desde o século XVIII, caracterizado pela alegria, espontaneidade, pacífico, onde participam crianças, jovens, adultos e terceira idade; acontece com o envolvimento quase total da comunidade local.

A festa é conhecida regionalmente como o carnaval mais animado do estado do Tocantins, os blocos são formados por amigos, familiares, conhecidos e convidados - coordenados pela Comissão local organizadora do Entrudo. A cada dia de carnaval a Comissão e todos os blocos participantes iniciam marcha carnavalesca que sai por volta das 7h da manhã da casa do folião responsável por um dos blocos integrantes do Entrudo.

Carnaval de Arraias, foto: blog www.dinomarmiranda.com /2015


A tradição preconiza que todos os participantes da marcha devem ser molhados com água, antes do início da mesma. Após atendido este quesito, os carnavalescos tomam caldo quente, geralmente feito a base de mandioca e carne para aquecer o corpo, oferecido pelo dono da casa; em seguida, a marcha percorre o itinerário do entrudo, passa pelas casas dos foliões responsáveis pelos demais blocos, e também pelos principais pontos históricos da cidade até finalizar na Praça da Matriz de Arraias, onde junta-se ao grande baile público de carnaval. 

Durante toda a festa é comum observar o ato de jogar água em quaisquer pessoas presentes, conhecidas ou não. Sendo que tanto os locais, quanto visitantes estão com o espírito aberto para a brincadeira, sem direito à apelação. Durante toda a marcha há o consumo de bebida e farofa. Interessante lembrar que toda essa marcha termina por volta das 5 ou 6h da tarde, e que o percurso é composto por ladeiras sinuosas e estreitas com piso tipo paralelepípedo.

Há vários blocos do Entrudo, mas nem todos participam da marcha, sendo que alguns apenas esperam a chegada do Entrudo na Praça da Matriz ou mantém suas atividades concentradas no centro da cidade.

V - Referências


Wikipedia - Entrudos
Viagem Pictórica ao Brasil / Debret - Entrudos
Arraias - Turismo.To
Entrudo de Arraias - Turismo.To e Blog www.dinomarmiranda.com

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