segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Carlos Drummond de Andrade - Poemas Musicados

I - Carlos Drummond de Andrade





Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. Estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental".


Sua poesia era uma porta aberta desafiando o mundo real. 



A família do poeta se mudou para Belo Horizonte em 1920. Nesse ano, Drummond publica a sua primeira crítica, no Jornal de Minas. Depois de escrever algumas matérias e crônicas para o jornal por um valor insignificante, ele procura trabalho no Diário de Minas, para onde escreverá pelos próximos dez anos. 



Em Belo Horizonte, a partir de amigos em comum, que se reúnem para beber e discutir em bares, restaurantes, livrarias e cinemas, o escritor se aproxima daquele que seria um dos maiores memorialistas da literatura nacional, o então estudante de medicina Pedro Nava. Drummond e Nava acabam por fazer parte de um mesmo grupo intelectual, um entre vários que surgem às vésperas da eclosão do modernismo no país, capitaneado pela Semana de Arte Moderna de 1922. Em 1924, o grupo de Drummond encontra os modernistas paulistas – Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Blaise Cendrars – e tem início a correspondência entre o poeta mineiro e o autor de Macunaíma.


"Em 1928 publicou na Revista de Antropofagia o célebre poema "No meio do caminho", divisor de águas em sua busca de um estilo pessoal caracterizado pelo ceticismo, por uma sutil filosofia  do cotidiano, e pelo primado da  objetividade.

Em 1934 Drummond mudou-se para o Rio de Janeiro onde se tornou chefe do gabinete do ministro da Educação, Gustavo Capanema. Depois de 11 anos de trabalho transferiu-se, até a aposentadoria em 1962, para o serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A vida reclusa e metódica de burocrata contrastava com o espírito insubordinado da sua poesia. O humor discreto e a  preocupação com a forma, entretanto, o afastaram dos realistas e engajados.

Sua poesia é uma sofisticada meditação sobre o cotidiano, no fundo do qual o poeta encontrava sempre, "um sistema de erros" e um grande vazio. Isso o levou a um sentimento constante de solidão que se define  pelo verso célebre do "Poema das sete faces": Vai Carlos! ser gauche na vida." Serena e contida sua poesia guarda, muitas vezes, um tom clássico, outro aspecto que o afastava do modernismo. A ironia delicada, a linguagem sofisticada e o repúdio à retórica, porém aproxima Drummond dos modernistas."  (Texto de José Castelo, jornalista do Globo, no livro 501 grandes escritores)

Principais Obras:


Poesia

Alguma poesia, 1930                     - Brejo das ALmas, 1934
Sentimento do mundo, 1940          - Claro engima, 1951
Boitempo, 1968

Contos:

Contos de Aprendiz, 1951



Poema  "No meio do Caminho"


No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.




Poema do medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade



II - Poemas Musicados de Carlos Drummond


Comentário sobre o Poema: José ?


Durante a época da Segunda Guerra Mundial e da ditadura de Vargas, escreveu seu poema “José”, repleto de reflexões existencialistas, questiona-se sobre o futuro e as incertezas, porém não deixa de demonstrar sua força, José continua, mesmo sem saber para onde. Assim como nós. (www.contioutra.com.br de Josie Conti)


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade





Canção Amiga - Milton Nascimento


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Comentário sobre o Poema


"Canção Amiga" é um poema no qual Drummond expressa o ideal de construir uma poesia capaz de despertar a consciência dos adultos e servir de canção de ninar para as crianças. 


Em 1989, quinze meses após sua morte, começou a circular a cédula de 50 cruzados novos, que homenageava o poeta e trazia no anverso este poema. Infelizmente, com a espiral inflacionária e a rápida sucessão de moedas (cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real), a homenagem durou pouco. A cédula (veja mais abaixo) saiu de circulação em outubro de 1992. (site www.algumapoesia.com.br)





III - Referências


501 Grandes Escritores - Editora Sextante - Texto de José Castelo
Especial Veja - Carlos Drummond de Andrada
www.contioutra.com.br de Josie Conti - poema José
Paulo José - Youtube - E agora José ?
Milton Nascimento - Canção Amiga
site www.algumapoesia.com.br - canção amiga


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