terça-feira, 23 de agosto de 2016

Santuário de Bom Jesus do Matosinhos, Congonhas - Obra-prima de Aleijadinho

1. - A devoção do Bom Jesus do Matosinhos


A origem dessa devoção teve origem em Portugal, com a descoberta de uma imagem do Cristo crucificado aparecendo nas margens da praia de Matosinhos. Atribuiu-se que a imagem teria sido feito por Nicodemos, que assistiu a crucificação de Jesus, e que posteriormente a teria jogado ao mar fugindo de perseguições. 

A imagem foi colocada inicialmente no mosteiro local e logo depois, com o desenvolvimento rápido de uma forte devoção,  foi construída, em 1559,  uma igreja especial para ela. 




No Brasil, a devoção se deu com a vinda dos colonizadores portugueses mas também teve logo grande difusão. Cerca de 23 cidades foram fundadas sob as bençãos do Bom Jesus de Matosinhos. No período colonial, quando ficou pronta a Igreja, ela tornou-se o centro da maior peregrinação religiosa da época.


1.1 - A Construção do Santuário em Congonhas


"Coube ao português Feliciano Mendes, acometido por uma enfermidade incurável à época, realizar uma promessa a Bom Jesus de Matosinhos: caso se curasse, fundaria uma irmandade em Congonhas semelhante à do Norte de Portugal. Ele havia desbravado anos antes aquelas terras na Região Central de Minas e descoberto ouro. A doença veio junto com seu enriquecimento. Felizmente sua promessa surtiu efeito positivo. 

Como forma de gratidão, ele dedicou o resto da vida a fundar, naquele vilarejo, não só a irmandade a Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo, como cuidou pessoalmente de angariar recursos para construção de uma igreja monumental no pico de uma das colinas mais altas do lugar, incluindo os Passos da Paixão com as 66 figuras em cedro e os 12 profetas em pedra-sabão. 

Para a missão chamou Aleijadinho, o maior artista daqueles tempos. Desde 1780, aquela irmandade passou a organizar e promover a romaria e os jubileus atraindo, sempre em setembro, milhares de peregrinos. 

Iniciando os seus trabalhos em 1796, na ladeira em frente à Igreja Aleijadinho construiu seis capelas, três de cada lado, com cenas da Paixão de Cristo. Dentro de cada uma delas um conjunto de esculturas em cedro em tamanho natural representa uma cena da Paixão de Cristo. O trabalho de Aleijadinho foi concluído em 1799.

Entre 1800 e 1805, Aleijadinho confeccionou as 12 esculturas em pedra sabão representando os Profetas para serem colocadas no Adro da Igreja. Cada uma das esculturas está colocada em posições diferentes e com movimentos de mãos em que parecem esta se comunicando. 

Por fim a Igreja com uma só porta de entrada, duas janelas e um interior claro e bem decorado." (Estado de Minas - www.em.com.br)

A construção completa foi feita em etapas e foi realizada de 1757 a 1875. Em 1939 o Santuário foi tombado pelo patrimônio histórico nacional e em 1985 foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

2. - O Projeto de Aleijadinho para o Santuário


2.1 - O caminho do calvário


"Aleijadinho fez 66 esculturas em cedro em tamanho natural para representar os passos da Paixão de Cristo. Fugindo da clássica representação da Santa ceia, difundida pela pintura de Leonardo da Vinci em MIlão, Aleijadinho montou um cenário com uma mesa redonda, diferente da ratangulas do artista italiano. Na arte barroca / rococó as formas curvas são mais usadas e nosso artista mineiro dispões os apóstolos em semi círculos." (Percival Tirapeli - Arte Brasileira / arte colonial)

Santa Ceia


Santa Ceia - Via Sacra, Bom Jesus do Matosinhos - Obra de Aleijadinho

"As mão em diversas posições são importantes pois além do olhar da cabeça, enfatizam as linhas de múltiplas direções. O Cristo fica no centro da composição e, com olhar sereno e lábios entreabertos, anuncia que um dos apóstolos irá traí-lo. Consola-o São João. As cabeças voltadas umas para outras denunciam a surpresa, que também está nos olhares. Sobre a mesa, um leitão assado para a ceia , em vez do tradicional pão. Dois porta-pratos e uma pintura de falsa janela no centro, acima do Cristo, completam o cenário. A pintura da pele dos apóstolos e do Cristo - chamada de carnação - e das vestes foi feita por mestre Ataíde."  (Percival Tirapeli - Arte Brasileira / arte colonial)

A prisão: Características



Jesus é preso no Monte das Oliveiras
Capela dupla para evitar construções de número ímpar


Características dos rostos goticizantes do Cristo: Os cabelos na testa, formando um duplo parênteses flamejante, o desenho do bigode sobre o lábio superior, também em parênteses, o contorno externo dos mesmos bigodes, acidentado por saliências espinhosas; os dois rolos, que constituem a barba, frisados a ferro; os cabelos espalhados em cachos e volutas. (Acervo Digital UNESP - Bazin, p. 259.) 

Os soldados romanos por serem maus vistos, deveriam ser caricatos, com saiotes para serem ridicularizados a exemplo das apresentações medievais em praça pública. O queixo e a ponta do nariz são proeminentes, as sobrancelhas frisadas rimando com o capacete e o rosto mascarado. (Prof Percival Tirapeli - Acervo digital UNESP)


Cristo carregando a cruz

Cristo carregando a cruz - Santuário Bom Jesus de Matosinhos - Obra de Aleijadinho

"Jesus carregando a Cruz às costas – tropeça, observado pelas Santas Mulheres ou filhas de Jerusalém, uma com rosto que parece o Anjo da Paixão. Trajes recordando as figuras de presépios de barro dos fins do século XVIII. Maravilhosa figura do Cristo, expressão horrorizada do rosto, dedos tensos, pernas sangrentas, rosto do soldado ao fundo é a caricatura do rosto do Cristo, sempre na tradição portuguesa. Feitos pelo Aleijadinho o Cristo e a mulher que enxuga as lágrimas com o lenço." (Arteclassicaeterna-Prof Mundim / Crônicas macaense).



A crucificação de Jesus


Cristo sendo crucificado - Santuário Bom Jesus de Matosinhos - Obra de Aleijadinho

"A crucifixão mostra a grande vítima em holocausto. Faltaria o brio das outras? As figuras separadamente sim, o conjunto não. Nas cabeças do Cristo, o Aleijadinho é sempre um escultor do século XVIII: cabelos simplesmente divididos, lábios delicados, entreabertos, superfície terna da carne, são todos de sua mão – embora discípulos devam ter esculpido outras figuras." (Arteclassicaeterna - Prof Mundim, Crônicas Macaense)


2.2 - Os doze profetas




As doze esculturas dos profetas no adro do santuário de Congonhas, de pedra-sabão, estão colocadas de maneira que se relacionem e cumpram a função de convidar o fiel a subir as escadarias e ouvir a palavra divina da qual são os mensageiros.

Suas vestimentas lembram as figuras bíblicas que viveram na longínqua Terra Santa, com turbantes à maneira turca e longos mantos ricamente ornados. As esculturas revelam traços característicos da arte de Aleijadinho: magníficas cabeleiras, olhos oblíquos orientais, além de minuciosos e bem cuidados ornatos das vestes e citações latinas nos filactério (rolos bíblicos). (Museu USP -mc.prceu.usp.br/aleijadinho/)



Isaías



Na parte inferior, logo à entrada, à esquerda de quem sobe, sobre pilastra misulada, fica o profeta Isaias, que anuncia a palavra de Deus, tendo na boca uma brasa ardente.

Profeta da fé e justiça política, viveu em Jerusalém na segunda metade do século VIII a.C.. Isaias recebe os fiéis na escadaria de convite do santuário. Ele é o primeiro da lista da Vulgata (textos sagrados traduzidos para compreensão popular), pois é o mais importante e autor do primeiro livro dos profetas. 

Muito conhecido tanto no Antigo como no Novo Testamento – neste último, ele é citado mais de oitenta vezes. Viveu em Jerusalém no século VIII a.C., nos reinados de Achab e Ezequias. Foi o responsável por manter a esperança e fé de que um dia a salvação chegaria por meio do Messias, e por isso mesmo profetizou a anunciação à Virgem Maria e o nascimento de Cristo (estas profecias estão nas cenas pictóricas dentro da basílica). (Museu USP -mc.prceu.usp.br/aleijadinho/)



Jeremias / Ezequiel / Baruc

Do lado oposto, Jeremias, também sobre pilastra igualmente trabalhada, com a pena na mão esquerda, simbolizando a escrita profética.

Simetricamente, está Ezequiel, com o braço esquerdo levantado e suavemente inclinado, convidando o peregrino a prosseguir no caminho. 

Do outro lado, Baruc, profeta menor, é o mais jovem de todos. 

Daniel

Daniel - Obra de Aleijadinho






Daniel, considerado a obra-prima de Aleijadinho, inspirado num trabalho do pintor renascentista Rafael de Sanzio, tem como atributo iconográfico o leão com o qual permaneceu em uma cova.


Daniel é o único profeta esculpido em um bloco único de pedra sabão. Os outros são em dois blocos.

Daniel – significa Deus é meu juiz – é um dos quatro profetas maiores que viveu dois extremos na vida: foi prestigiado pelos governantes pelo fato de interpretar sonhos, e cativo quando desterrado para a Babilônia. A inveja de seus inimigos levou-o a ser jogado vivo em uma cova com leões.
Ainda jovem foi levado para a Babilônia, durante o reinado de Nabucodonosor. Lá no cativeiro interpretou o sonho do rei sobre os quatro reinos que viriam sobre a terra; o último, o de Deus, não seria destruído.




Oséias / Jonas /  Joel


Oséias

Do lado contrário fica Oséias, barba encaracolada, a pena à destra. 

Viveu em Israel no século VIII A.C., depois do profeta Amós; pouco se sabe de sua vida, a não ser que se casou com uma adúltera. 

Jonas

Mais para a esquerda, no mesmo parapeito, Jonas recebe do céu a divina inspiração que o profeta precisa para a pregação. Tendo ficado no ventre da baleia, o artista coloca o jorro de água sobre as vestes e uma espécie de golfinho a seus pés. 

Do lado oposto, Joel. 





Amós / Naum / Habacuc


Amós

No parapeito superior, à esquerda de quem entra, fica Amós. 


Amós era de família humilde de pastores. Viveu por volta de 760 A.C. e foi contemporâneo dos profetas Isaias e Oseias. É um dos doze profetas maiores e sua pregação com palavras diretas e simples denunciou a riqueza excessiva dos ricos e a miséria dos pobres. Pregou ainda contra o próprio povo que, perdido no luxo, esquecera que era o povo escolhido e por isso mesmo merecia o castigo como as nações pagãs.


Simetricamente, no extremo oposto, vê-se Naum, velho, sereno. 

Ainda no parapeito superior, bem fronteiro à igreja, à esquerda de quem entra, está colocado Abdias, que aponta o céu exortando o povo a ouvir as profecias. 



Do lado oposto, Habacuc também mostra o céu, completando a gestualidade que une a todos os profetas como que orquestrados pelo cinzel do gênio. 


Todo o Texto sobre os Profetas=> (Museu USP -mc.prceu.usp.br/aleijadinho/)



Visão geral




2.3 - A igreja de Bom Jesus


A construção do santuário começou em meados do século XVIII (1757 – 1778). A fachada da igreja é provida de cunhais, pilastras, cimalha e guarnições de pedra. 

A igreja tem fachada simples, com apenas uma entrada, duas janelas do coro, duas torres sineiras e um triangulo frontão com as curvas e portada rococós.

O frontão tem curvas graciosas guarnecidas de pedra. No interior, sobre o trono, a imagem de Jesus Crucificado e, no altar mor , obra de João Antunes de Carvalho (1769 – 1775) dois anjos tocheiros esculpidos por Francisco Vieira Servas.



Interior da Igreja



Vista do Altar - Igreja do Santuário Bom Jesus do Matosinhos - foto Museu de Congonhas



Vista do Teto  e do Coro da  Igreja do Santuário Bom Jesus do Matosinhos - foto Museu de Congonhas

Os altares laterais têm geralmente consolo em lugar de colunas, na parte superior há anjos esculpidos. Na capela-mor , e por toda a nave , há vários painéis representando cenas bíblicas. Também nos tetos do prebistério e do corpo da igreja há variadas pinturas em perspectiva de artistas como João Nepomuceno Correia Castro (1778 – 1787), retocadas por Manoel da Costa Ataíde. (Museu USP -mc.prceu.usp.br/aleijadinho/)



3. - O Museu de Congonhas


A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO no Brasil), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Prefeitura de Congonhas inauguraram em 15 de dezembro, de 2015, um dos mais importantes projetos de preservação da memória do país: o Museu de Congonhas. 

A instituição chega ao público com a missão de potencializar a percepção e a interpretação das múltiplas dimensões do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, sítio histórico que, desde 1985, tem o título de Patrimônio Cultural Mundial. A inauguração integra as comemorações dos 30 anos do título e dos 70 anos de existência da UNESCO.


 Museu


Salão Principal





Visão geral da sala principal


Ex-votos




O ex-voto (do latim: Por força de uma promessa, de um voto; ou a abreviação de ex-voto suscepto - o voto realizado é o presente dado pelo fiel ao seu santo de devoção em consagração, renovação ou agradecimento de uma promessa. 

As expressões votivas são tradicionalmente reconhecidas sob as formas de pinturas ou desenhos, figuras esculpidas em madeira, modeladas em argila ou moldadas em cera, muitas vezes representando partes do corpo que estavam adoecidas e foram curadas. 

Comumente são representados como placas com inscrições, manuscritos em papel ou como objetos de uso cotidiano, ressignificados no contexto religioso. (Wikipedia)





A exposição permanente que inaugura o Museu de Congonhas, cuja curadoria é assinada pelos museólogos Letícia Julião e Rene Lommez, trata das manifestações da fé no passado e no presente, em particular, o sentido de exteriorização da devoção projetado na monumentalidade teatral do espaço do Santuário, nas práticas da romaria e nos ex-votos. 




Cópias de Salvaguarda


As cópias são uma medida de segurança essencial para se reproduzir as peças em caso de danos irreversíveis aos originais. Os profetas de Congonhas tinham moldes feitos em várias épocas, em especial nas décadas de 1970 a 1980, os quais não apresentam mais as condições necessárias à reprodução. Para dois profetas – Joel e Daniel – foram produzidos novos moldes em fôrma flexível de silicone, possibilitando a produção de cópias em gesso. A produção das demais cópias deverá fazer parte do escopo de atuação do próprio Museu. Os 12 profetas foram moldados em meio eletrônico (digitalização em 3D), o que correspondeu à primeira aplicação dessa tecnologia no Brasil. 

A ação também foi coordenada pela UNESCO no Brasil, que contratou o Grupo IMAGO, da Universidade Federal do Paraná, instituição de excelência que detém a expertise exigida para o trabalho. A digitalização em 3D possibilita, dentre outros, a visualização pura e simples (no Museu ou remotamente pela internet), o uso profissional na preservação e restauro das obras; o monitoramento do estado de conservação das peças frente à ação do tempo; o estudo minucioso da obra e a compreensão das técnicas utilizadas pelo artista; e, finalmente a produção de réplica com grande precisão. (Portal do Iphan)




4. - Referências


a) Arte Brasileira / arte colonial - Percival Tirapeli
b) Estado de Minas - www.em.com.br
c) Wikipedia - Santuario Bom Jesus de Matosinhos / Ex-voto
d) Fotos e Notas de HistoriacomGosto
e) Acervo Digital UNESP - Prof Percival Tirapeli - http://www.acervodigital.unesp.br/bitstream/unesp/141151/1/aleijadinho_escultor.pdf
f) Crônicas Macaense: - https://cronicasmacaenses.com/2013/04/19/a-via-sacra-do-santuario-do-bom-jesus-de-matosinhos-em-congonhas-minas-gerais/
g) Museu de Congonhas - Portal do Iphan
h) arteclassicaeterna - http://arteclassicaeterna.blogspot.com.br/2015/09/aleijadinho-via-sacra-do-santuario-do.html
i) Explorando os doze profetas de Aleijadinho - Museu da USP - mc.prceu.usp.br/aleijadinho/

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