segunda-feira, 29 de maio de 2017

Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade - Brasil

I. - Patrimônio Cultural Imaterial - O que é ? (UNESCO)



"O Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes."

Não só de aspectos físicos se constitui a cultura de um povo. Há muito mais, contido nas tradições, no folclore, nos saberes, nas línguas, nas festas e em diversos outros aspectos e manifestações, transmitidos oral ou gestualmente, recriados coletivamente e modificados ao longo do tempo. A essa porção imaterial da herança cultural dos povos, dá-se o nome de patrimônio cultural imaterial.
Para muitas pessoas, especialmente as minorias étnicas e os povos indígenas, o patrimônio imaterial é uma fonte de identidade e carrega a sua própria história. A filosofia, os valores e formas de pensar refletidos nas línguas, tradições orais e diversas manifestações culturais constituem o fundamento da vida comunitária. 
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Em 2003 e 2005, a Proclamação das Obras-Primas do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade selecionou, por meio de um júri internacional, espaços e expressões de excepcional importância, dentre candidaturas oferecidas pelos países.
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Finalmente, em 2003, após uma série de esforços, que incluíram estudos técnicos e discussões internacionais com especialistas, juristas e membros dos governos, a UNESCO adotou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Essa convenção regula o tema do patrimônio cultural imaterial e, assim, complementa a Convenção do Patrimônio Mundial, de 1972, que cuida dos bens tangíveis, de modo a contemplar toda a herança cultural da humanidade.

II.- Lista do Patrimônio Brasil


II.1 - O Samba de Roda do Recôncavo Bahiano - 2008


O Samba de Roda é um acontecimento popular festivo que combina música, dança e poesia. Surgiu no século XVII, na região do Recôncavo no Estado da Bahia, e vem das danças e tradições culturais dos escravos africanos da região. Além disso, contém elementos da cultura portuguesa, como a língua, a poesia e alguns instrumentos musicais.
No princípio, era o principal componente da cultura regional popular entre os brasileiros de origem africana, mas logo o Samba de Roda foi adotado pelos migrantes procedentes do Rio de Janeiro e influenciou a evolução do samba urbano, que se converteu em símbolo da identidade nacional brasileira no século XX.
A dança congrega pessoas em ocasiões específicas, como as festas católicas populares e os cultos afro-brasileiros, mas às vezes também surge de forma espontânea. Todos os presentes, incluindo os principiantes, são convidados a participar da dança e a aprender por observação e imitação.

Uma das características desse samba é que os participantes se reúnem em um círculo chamado roda. Geralmente, apenas as mulheres dançam. Uma por uma, elas vão se colocando no centro do círculo formado pelos outros dançarinos, que cantam e batem palmas ao seu redor. Essa coreografia frequentemente improvisada se baseia nos movimentos dos pés, das pernas e dos quadris.


Um dos movimentos mais característicos é a famosa umbigada (movimento de umbigo), de origem banto, pelo qual a dançarina convida quem vai sucedê-la no centro do círculo. Existem outros detalhes específicos, como canções típicas, o passo de dança chamado miudinho, a utilização de instrumentos raspados e a viola machete, um tipo de viola pequena, originária de Portugal, e canções.



A influência dos meios de comunicação de massa e a competição com a música popular contemporânea contribuíram para que este Samba fosse desvalorizado aos olhos dos jovens. A idade dos praticantes e a redução do número de artesãos capazes de confeccionar alguns dos instrumentos impuseram mais uma ameaça à transmissão dessa tradição.

II.2 - Expressões orais e gráficas dos wajapis - 2008


Os wajapis, que pertencem ao grupo etnolinguístico tupi-guarani, são uma população indígena do norte da Amazônia. Os 580 membros que atualmente compõem essa comunidade vivem em cerca de 40 aldeias, agrupadas em um território protegido do Estado do Amapá, ao noroeste da região norte do Brasil.
Os wajapis têm uma tradição ancestral que consiste em utilizar tinturas vegetais para adornar, com motivos geométricos, seus corpos e outros objetos. Com o passar dos séculos, eles desenvolveram uma linguagem única, uma combinação de arte gráfica e verbal, que reflete sua visão particular do mundo e pela qual transmitem os conhecimentos essenciais da vida da comunidade.
Os motivos desta arte gráfica única, chamada kusiwa, são realizados com tinturas vegetais vermelhas, extraídas de uma planta amazônica, a bija, misturada com resinas perfumadas. A arte kusiwa é tão complexa que os wajapis consideram não ser possível alcançar as competências técnicas e artísticas necessárias para dominar a arte do desenho e da preparação das tinturas antes dos 40 anos de idade. Os motivos mais recorrentes são a onça pintada, a cobra, a borboleta e o peixe.

foto de Silvia Cunha para UNESCO
Os desenhos kusiwas se referem à criação da humanidade e dão vida aos numerosos mitos sobre o surgimento do homem. Esse grafismo corporal, vinculado às antigas tradições orais ameríndias, apresenta vários sentidos em diferentes níveis sociológicos, culturais, estéticos, religiosos e metafísicos. Assim, a arte kusiwa constitui a estrutura genuína da sociedade wajapi, e sua significação vai muito além de sua mera dimensão artística.


Esse repertório codificado de conhecimentos tradicionais evolui de forma permanente, uma vez que os artistas indígenas renovam constantemente seus motivos, mediante reinterpretações e invenções.

II.3 - Yaokwa, ritual do povo enawene nawe para a manutenção da ordem social e cósmica - 2011


Os enawene nawe vivem às margens do Rio Juruena, nas florestas fluviais da Amazônia meridional. Todos os anos, na estação seca, eles realizam o ritual Yaokwa, para prestar homenagem aos espíritos e garantir a manutenção da ordem cósmica e da ordem social entre seus diferentes clãs. Esse ritual relaciona a biodiversidade local a uma complexa cosmologia simbólica, as quais se entrelaçam em âmbitos distintos, mas inseparáveis, da sociedade, da cultura e da natureza.

foto IPHAN 2008

O ritual faz parte da vida cotidiana dos enawene nawe e se prolonga por um período de sete meses, durante o qual os clãs assumem diferentes atividades por turno: um grupo empreende expedições pesqueiras por todo o território, enquanto outro prepara oferendas de sal gema, pescado e comidas rituais para os espíritos, além de interpretar músicas e danças. O ritual combina os conhecimentos teóricos e práticos sobre a agricultura, o tratamento de alimentos, o artesanato (confecção de indumentárias, utensílios e instrumentos musicais) e a construção de casas e diques para a pesca.

Como o Yaokwa e a biodiversidade local se baseiam em um ecossistema muito frágil, a continuidade do ritual e da biodiversidade depende diretamente da conservação do ecossistema. Por isso, tanto o ritual como a diversidade estão gravemente ameaçados pelo desmatamento e por uma série de práticas invasivas: a exploração intensiva da extração de minérios e madeira, a pecuária extensiva, a contaminação da água, a deterioração do curso superior dos rios, a urbanização descontrolada, a abertura de vias terrestres e fluviais, a construção de diques, a drenagem e o desvio dos rios, a queima de florestas, a pesca furtiva e o comércio ilícito de espécies silvestres.


II.4 - Frevo: arte do espetáculo do carnaval de Recife - 2012


O Frevo é uma expressão artística de música e dança, praticada principalmente durante o carnaval de Recife, capital de Pernambuco. O ritmo frenético e potente de sua música, executada por bandas militares e charangas, baseia-se na fusão de gêneros como a marcha, o tango brasileiro, a contradança, a polca e a música clássica.

A música é essencialmente urbana e igual ao passo – a dança que a acompanha –, sendo também dinâmica e subversiva. A dança tem suas origens na destreza e na agilidade dos lutadores de capoeira, que improvisam seus saltos ao som eletrizante das orquestras e bandas de instrumentos de metal.

Os praticantes do Frevo e do seu passo são membros de associações que participam dos desfiles de carnaval. Nas sedes dessas associações, é oferecido apoio para preservar, transmitir e desenvolver competências e conhecimentos relacionados ao Frevo.


foto de Filipe Frazão em shutterstock.com

Esse elemento do Patrimônio Cultural também está estreitamente vinculado às crenças e ao universo simbólico da religião de quem o pratica. Várias associações adotam como distintivos as cores relacionadas à fé religiosa de seus membros, e alguns dos ornamentos utilizados também têm um significado religioso.

O Frevo é resultado da criatividade e da riqueza cultural, produzido por uma combinação excepcional da música, da dança, da capoeira, do artesanato e de outros elementos que manifestam a inteligência e a capacidade de criação de quem o pratica. Essa capacidade de fomentar a criatividade humana e o respeito pela diversidade cultural são inerentes ao Frevo.

II.5 - Círio de Nazaré: procissão da imagem de Nossa Senhora de Nazaré na cidade de Belém (Estado do Pará) - 2013


As festividades do Círio de Nazaré se iniciam todos os anos no mês de agosto, e seu ponto culminante é a grande procissão celebrada em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, no segundo domingo de outubro, com o transporte de uma imagem de madeira da Virgem Maria da Catedral da Sé até a praça do Santuário de Nazaré, na cidade de Belém do Pará.

Depois desse ato religioso, as festividades se prolongam por mais duas semanas. Praticamente todas as cidades vizinhas participam da procissão, e grandes multidões de peregrinos de todo o Brasil vão a Belém participar dessa concentração religiosa, que é uma das maiores do mundo.

As festividades abrangem vários elementos que refletem o caráter multicultural da sociedade brasileira: práticas culturais e culinárias tradicionais da Amazônia e objetos artesanais, como os brinquedos fabricados com diversos tipos de madeira local.



foto PASCOM / www.ciriodenazare.com.br
A combinação do sagrado e do profano faz com que esse evento religioso também apresente facetas estéticas, turísticas, sociais e culturais. O uso de barcos na procissão tem um caráter simbólico, uma vez que Nossa Senhora de Nazaré é a santa padroeira dos marinheiros. Os fiéis constroem altares em casas, tendas, bares, mercados e edifícios públicos em toda a cidade.


A transmissão dessa prática cultural tradicional se realiza no seio das famílias, quando os pais assistem aos festejos acompanhados de seus filhos pequenos e adolescentes. Para muitos, a festividade do Círio de Nazaré é uma ocasião para retornar à casa e se reunir com a família, enquanto para outros é uma oportunidade para organizar manifestações políticas.



II.6 - Roda de Capoeira - 2014




A Roda de Capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira – simultaneamente, uma luta e uma dança –, que pode ser interpretada como uma tradição, um esporte e até mesmo uma arte. Os capoeiristas formam um círculo, uma roda e, ao centro, dois deles “jogam” a capoeira, cujos movimentos requerem grande destreza corporal. Os outros jogadores, em volta do círculo, cantam, batem palmas e tocam instrumentos de percussão. As rodas de capoeira são formadas por grupos de pessoas de todos os gêneros, e contam com um mestre, um contramestre e discípulos. 

O mestre é o portador e o guardião do conhecimento da roda, e deve ensinar o repertório, manter a coesão do grupo e sua observância a um código de ritual. Normalmente, o mestre toca o berimbau, instrumento de percussão com apenas uma corda. Ele inicia os cantos e conduz o tempo e o ritmo do jogo. 





Todos os participantes devem saber o que fazer e como tocar o instrumento, cantar e compartilhar as letras dos cantos, improvisar as músicas, conhecer e respeitar os códigos de ética e conduta, além de executar os movimentos, os passos e os golpes. A roda de capoeira é um lugar onde o conhecimento e as habilidades são aprendidas por observação e imitação. Também funciona como uma afirmação de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos, além de promover a integração social e preservar a memória da resistência à opressão histórica.


III. - Referências

Todas as informações foram retiradas do site da UNESCO, com a finalidade exclusiva de divulgação cultural.


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