terça-feira, 2 de maio de 2017

O Brasil de Debret II - Grupo Escravos Negros

I. - Jean Baptiste Debret (1768 - 1848)



Pintor e desenhista, Debret foi um dos principais personagens da Missão Artística Francesa que aportou no Brasil a 26 de março de 1816, com a finalidade de implantar aqui uma Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O grupo era chefiado por Joachim Lebreton e Debret o  integrava como pintor histórico. 


Histórico e Formação de Debret na França



autorretrato - Debret
Jean Baptiste era filho de Jacques Debret, funcionário do parlamento francês e estudioso de História Natural e Arte, e irmão de François Debret (nascido em 1777), arquiteto, membro do Institut de France.

Como a Revolução Francesa necessitava de engenheiros que entendessem de fortificações foram  então  selecionados alguns dos alunos mais brilhantes para o curso de Engenharia. Debret foi um dos escolhidos, tendo estudado engenharia por cinco anos, seguindo a tradição da família, na École Nationale des Ponts et Chaussées.



Depois de formado, em janeiro de 1795 foi contratado como desenhista de 3a classe na École Centrale des Travaux Publics (futura École Polytechnique) que apenas começava suas atividades. Em dezembro do mesmo ano passa a professor de desenho. Em abril de 1796, sua vaga foi extinta e ele deixa a École Polytechnique. 



Apesar da carreira de engenheiro, Debret voltaria à pintura. Expôs no salão de 1798 um quadro com figuras de tamanho natural com o qual ganhou o segundo prêmio.


Debret frequentou então a Academia de Belas Artes na França, na qual foi aluno do pintor Jacques-Louis David, o principal nome do neoclassicismo francês.

II. - Debret no Brasil


a) Os objetivos da Missão Francesa

Quando o grupo chegou ao Brasil, em 1816, o ambiente político estava um pouco conturbado com o falecimento de Dona Maria I, uma revolução em Pernambuco e situação instável na Europa. Além disso, o projeto começou a enfrentar resistências por parte dos artistas locais e dos mestres portugueses  fortemente ligados ao barroco. Mesmo assim Dom João VI assinou um decreto se comprometendo com o pagamento aos artistas franceses para que eles implantassem então a Escola Real de Artes e Ofícios. 

Prejudicaram ainda o trabalho da implantação da escola a morte do Conde da Barca, incentivador do projeto, em 1817, a morte do Lebreton em 1819 e a lenta aprovação e construção do edifício onde seria implantada a Academia. 


Foi apenas em dezembro de 1826, que foi finalmente inaugurada a Academia Imperial de Belas Artes. 

Durante todo o tempo que ficou no Brasil, Debret fez várias viagens onde documentou a vida cotidiano do país, e voltando para a Europa fez a publicação de seu famoso livro "Viagem Pitoresca e História ao Brasil"

III. - Organização da Obra de Debret - "Viagem Pitoresca ..."


Debret organizou a sua publicação da "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil" em três tomos, conforme descrevemos a seguir:

Tomo I - A situação do índio brasileiro

Tomo II - Atividade do povo civilizado do Brasil sob o jugo português;

Tomo III - História política e religiosa do Brasil

O blog vai seguir a mesma divisão, fazendo três posts, um referente a cada tomo;

IV. - Atividade do povo civilizado do Brasil sob o jugo português;

Debret, os escravos brasileiros e a formação dos "mulatos"

Logo ao chegar ao Brasil, Debret viu que a força motriz de todas as atividades era realizada pelos escravos negros que vinham da África.

"Tudo assenta pois, neste país, no escravo negro; na roça, ele rega com seu suor as plantações do agricultor; na cidade, o comerciante fá-lo carregar pesados fardos; se pertence ao capitalista, é como operário ou na qualidade de moço de recados que aumenta a renda do senhor. Mas, sempre mediocremente alimentado e maltratado, contrai às vezes os vícios dos nossos domésticos, expondo-se a castigos públicos, revoltantes para um europeu, e que são, muitas vezes, seguidos da venda dos culpados aos habitantes do interior, onde o ifeliz vai morrer a serviço do mineiro."

"Sem o consolo do passado, sem a confiança do futuro, o africano esquece o presente, saboreando, à sombra dos algodoais, o caldo da cana de açúcar; e, como essas plantas cansadas de produzir, acaba definhando a duas mil léguas de sua pátria, sem nenhuma recompensa pelos seus serviços menosprezados."


Caráter do mulato (Mulato dito homem de cor, mestiço de negra com branco)

Debret já vê então a distinção feita entre o escravo africano, o branco português e o mulato que ia se formando devido a mistura das raças. 


"É o mulato, no Rio de Janeiro, o homem cuja constituição pode ser considerada mais robusta: esse indígena, semi africano, dono de um temperamento em harmonia com o clima, resiste ao grande calor.

Ele tem mais energia do que o negro, e a parcela de inteligência que lhe vem da raça branca serve-lhe para orientar mais racionalmente as vantagens físicas e morais que o colocam acima do negro.

É naturalmente presunçoso e libidinoso, e também irascível e rancoroso, oprimido por causa da cor, pela raça branca, que o despreza, e pela negra que detesta a superioridade de que ele se prevalece."



V. - Pranchas e Comentários


a) Prancha 5 - Um funcionário a passeio com sua família


Debret comenta que após chegar no Rio depois de  dois meses de travessia, estranha que as ruas  estejam todas tomadas por negros carregadores e negras vendedoras de frutas, sem encontrar nenhuma mulher portuguesa nem nos balcões das casas nem nos passeios. Apenas no outro dia que era dia de festa, ele e seus colegas puderam observá-las na Igreja. Ele logo fez então o seu primeiro desenho.

"A cena aqui desenhada representa a partida, para o passeio, de uma família de fortuna média, cujo chefe é funcionário. Segundo o antigo hábito observado nessa classe, o chefe de família abre a marcha, seguido, imediatamente, por seus filhos, colocados em fila por ordem de idade, indo o mais moço sempre na frente; vem a seguir a mãe, ainda grávida; atrás dela, sua criada de quarto, escrava mulata, muito mais apreciada no serviço do  que as negras; seguem-se a ama negra, a escrava da ama, o criado negro do senhor, um jovem escravo em fase de aprendizado, o novo negro recém comprado, escravo de todos os outros e cuja inteligência natural mais ou menos viva vai desenvolver-se a chicotadas."




Debret comenta que os brasileiros tem as tradições portuguesas mas que também admiram muito os costumes franceses que quando os conhecem logo adotam.

"Depois de alguns anos, a imitação da moda francesa tornou elegante darem os homens, no passeio, o braço às senhoras casadas ou viúvas. As moças caminhando duas a duas, dão se o braço reciprocamente, ...,."

b) Prancha 07 - Jantar no Brasil

Essa prancha traz a dura realidade de como eram tratados e discriminados os escravos no dia-a-dia. 


"No Rio, como em todas as outras cidades do Brasil, é costume, durante o "Téte-à-Tete" de um jantar conjugal, que o marido se ocupe silenciosamente com seus negócios e a mulher se distraia com os neguinhos que substituem os doguezinhos, hoje quase completamente desaparecidos na Europa. Esses molecotes, mimados até a idade de cinco ou seis anos, são em seguida entregues à tirania de outros escravos, que os domam a chicotadas e os habituam, assim, a compartilhar com eles das fadigas e dissabores do trabalho."




A diferença das refeições de acordo com a condição social foi descrita em detalhe nesses comentários.

"O jantar para um homem abastado compõe-se de uma sopa de pão e caldo gordo, feito com um enorme pedaço de carne de vaca, salsichas, tomates, toucinho, couves, rabanetes, nabo, tudo bem cozido. serve-se ao mesmo tempo o cozido de várias carnes preparadas juntas; Ao lado coloca-se sempre o indispensável escaldado (flor de farinha de mandioca), que se mistura com o caldo de carne; Ao lado do escaldado vem uma galinha insossa com arroz e perto dela uma pirâmide de laranjas perfumadas; 

Para o humilde comerciante e sua família, vê-se, com espanto, que se compões apenas de um miserável pedaço de carne-seca. Cozinham-no à grande água com um punhado de feijões-pretos, cuja farinha cinzenta tem a vantagem de não fermentar no estômago. Essa refeição simples, repetida invariavelmente todos os dias e cuidadosamente escondida dos transeuntes é feita nos fundos da loja que também serve de quarto de dormir. 

Os mais indigentes e os escravos nas fazendas alimentam-se com dois punhados de farinha seca, umedecidos na boca pelo suco de algumas bananas ou laranjas. Finalmente, o mendigo, quase nu e repugnante de sujeira, sentado do meio dia às três à porta de um convento, engorda sossegadamente, alimentado pelos restos que a caridade lhe prodigaliza. "

  

c) Prancha 22 - Escravas negras de diferentes nações


Desde o início do século XV que os navegadores portugueses traziam escravos negros usavam na cultura das terras do continente e nas ilhas Canárias.

Em 1816, quando Debret chegou ao Brasil, os traficantes estavam embarcando cerca de 1500 negros a bordo de um pequeno navio. Essa travessia de dois meses nas piores condições de sobrevivencia possível, causava uma horrível mortandade e apenas entre trezentos a quatrocentos indivíduos escapavam com vida.

Motivados mais pela questão econômica dessa terrível perda de homens, do que por questões humanitárias, os traficantes decidiram embarcar menos homens e melhorar as condições da viagem. Passaram a permitir a subida alternada ao tombadilho e os levavam a exercitar-se pela dança ou exercícios de luta.

Os negros novos quando chegavam, eram levados para as casas da Rua do Valongo onde eram visitados, apreçados, selecionados como animais; examinavam-lhes a cor da tez, a consistencia das gengivas, etc,., Em seguida fazem-nos saltar, gritar, levantar pesos, a fim de apreciar o valor de suas força e suas habilidades.

As negras eram avaliadas de acordo com a idade e a sua beleza.

Durante o ano de 1828, foram importados pelo Brasil, 430.601 escravos. A partir de novembro de 1829, devido a um tratado concluído com a Inglaterra em 1826, a abolição do tráfico de escravos foi implantada no Brasil. 



Representação de negras das várias raças e condições

Em primeiro lugar vem a origem e depois a condição de trabalho de cada uma.


Primeira fila


1. - Rebolo, criada de quarto imitando com sua carapinha o penteado de sua senhora. 2. - Congo, negra livre, mulher de trabalhador negro em traje de visita; 3. - Cabra, crioula, filha de mulato e negra, cor mais escura do que o mulato; 4. - Cabinda, criada de quarto, vestida para levar uma criança a pia batismal. 5.- Crioula, escrava de casa rica, de baeta na cabeça. - 6. - Cabina, criada de quarto de uma jovem senhora rica; 7. - Benguela, criada de quarto de uma casa opulenta; 

Segunda fila

8.- Calava, jovem escrava vendedora de legumes, taruada com terra amarela. 9.- Moçambique, negra livre recém-casada. 10. - Mina, primeira escrava de um negociante europeu; 11.- Monjola, antiga ama e pajem de casa rica; 12.- Mulata, filha de branco com negra, concubina "teúda e manteúda". 13.- Moçambique, escrava em casa de gente abastada. 14. - Banguela, escrava vendedora de frutas, penteada com vidrilhos. 15. - Cassange, primeira escrava de um artífice branco. 16. - Angola, negra livre quitandeira.


d) Prancha 23 - Mercado da rua do Valongo


É na rua do Valongo que se encontra, no Rio de Janeiro, o mercado de negros, verdadeiro entreposto onse são guardados os escravos chegados da África.  

"Essa sala de venda, silenciosa o mais das vezes, está infectada pelos miasmas de óleo de rícino que se exalam dos poros enrugados desses esqueletos ambulantes, cujo olhar furioso, tímido ou triste lembra uma ménagerie (zóologico). Nesse mercado, convertido às vezes em salão de baile por licença do patrão, ouvem-se urros ritmados dos negros girando sobre si próprios e batendo o compasso com as mãos; essa espécie de dança é semelhante à dos índios do Brasil."


"É reproduzido aqui uma cena de venda. Pela disposição do armazém e a simplicidade do mobiliário, vê-se que se trata de um cigano de pequena fortuna, traficante de escravos. Dois bancos de madeira, uma poltrona velha, uma moringa e o chicote suspenso perto dele constituem toda a mobília do armazém. Os negros que aí se encontram pertencem a dois propríetários diferentes. A diferença da cor de seus lençois os distingue; são amarelos ou vermelhos-escuros."

e) Prancha 41 - Negociante de tabaco em sua loja


A maior produção de tabaco do Brasil vem da província de Minas;

Todas as negras fumavam cachimbo, mas os negros preferiam os cigarros de fumo picado. Muitas vezes fabricavamm esses cigarros com rapé enrolado em pequeno tubo de papel, distração que não prejudicava em nada o hábito de mascar durante o resto do dia. 


Detalhes da Prancha

"O negociante representado na loja é um português muito gordo, de lenço no pescoço para enxugar o suor que o inunda e servindo com a mesma indolência o forçado e o capitalista.

O negro apoiado ao balcão, primeiro da fila, foi encarregado dos negócios dos companheiros e da contabilidade da missão. Cada uma das latinhas representa uma encomenda. "

f) Prancha 45 - Aplicação do Castigo do Açoite


Apesar de no Brasil ter sido desenvolvido um ambiente de maior humanidade entre os patrões e os escravos, maior que em qualquer outro país do Novo Mundo, castigos ferozes com a finalidade de manter a disciplina e inibir a fuga, como o Açoite, foram incuídos no Código Penal e eram frequentemente aplicado a todo escravo negro culpado de falta grave: deserção, roubo, ferimentos recebidos em briga, etc,. 



Explicação da Prancha

"O lado esquerdo está ocupado por um grupo de condenados enfileirados diante do pelourinho, onde o carrasco acaba de distribuir quarente ou cinquenta chicotadas.

Logo depois de desamarrado, é  o negro castigado deitado no chão de cabeça para baixo, a fim de evitar-se a perda de sangue, e a chaga escondida sob a fralda da camisa, escapa assim à picada dos enxames de moscas que logo se põem À procura desse horrível repasto." 

VI. - Referências


Todo o texto e gravuras são reproduções do livro de Jean Baptiste Debret "VIAGEM PITORESCA E HISTÓRICA AO BRASIL" da editora Itatiaia. 

Esse post, não tem finalidade lucrativa. Os dois objetivos são:

a) Divulgar a História do Brasil, usando fontes fidedignas

b) Divulgar a obra de Jean Baptiste Debret

O livro é composto de 549 páginas e 54 pranchas. Esse post mostra apenas uma pequena parte do magnífico livro. Adquiram o livro e apreciem a história em sua totalidade.


VII. - Outras publicações sobre o tema


O Brasil de Debret I - Grupo Indígena
http://historiacomgosto.blogspot.com.br/2017/04/o-brasil-de-debret-i-grupo-indigena.html

O Brasil de Debret II - Grupo Escravos Negros
http://historiacomgosto.blogspot.com.br/2017/05/o-brasil-de-debret-ii-grupo-escravos.html

O Brasil de Debret III - Política e Religião (Em desenvolvimento)

2 comentários:

  1. Gosto muito de estudar estes pintores que retrataram o cotidiano do Brasil daquela época. É como ver a história do Brasil.

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    1. No caso de Debret e Rugendas, o trabalho deles ficou ainda mais interessante pois para cada prancha desenhada / pintada, ele fizeram comentários bastante completos sobre cada cena.

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