terça-feira, 25 de abril de 2017

O Brasil de Debret I - Grupo Indígena

I. - Jean Baptiste Debret (1768 - 1848)



Pintor e desenhista, Debret foi um dos principais personagens da Missão Artística Francesa que aportou no Brasil a 26 de março de 1816, com a finalidade de implantar aqui uma Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios. O grupo era chefiado por Joachim Lebreton e Debret o  integrava como pintor histórico. 



Histórico e Formação de Debret na França




autorretrato - Debret
Jean Baptiste era filho de Jacques Debret, funcionário do parlamento francês e estudioso de História Natural e Arte, e irmão de François Debret (nascido em 1777), arquiteto, membro do Institut de France.


Como a Revolução Francesa necessitava de engenheiros que entendessem de fortificações foram  então  selecionados alguns dos alunos mais brilhantes para o curso de Engenharia. Debret foi um dos escolhidos, tendo estudado engenharia por cinco anos, seguindo a tradição da família, na École Nationale des Ponts et Chaussées.

Depois de formado, em janeiro de 1795 foi contratado como desenhista de 3a classe na École Centrale des Travaux Publics (futura École Polytechnique) que apenas começava suas atividades. Em dezembro do mesmo ano passa a professor de desenho. Em abril de 1796, sua vaga foi extinta e ele deixa a École Polytechnique. 

Apesar da carreira de engenheiro, Debret voltaria à pintura. Expôs no salão de 1798 um quadro com figuras de tamanho natural com o qual ganhou o segundo prêmio.

Debret frequentou então a Academia de Belas Artes na França, na qual foi aluno do pintor Jacques-Louis David, o principal nome do neoclassicismo francês.

II. - Debret no Brasil


a) Os objetivos da Missão

Quando o grupo chegou ao Brasil, em 1816, o ambiente político estava um pouco conturbado com o falecimento de Dona Maria I, uma revolução em Pernambuco e situação instável na Europa. Além disso, o projeto começou a enfrentar resistências por parte dos artistas locais e dos mestres portugueses  fortemente ligados ao barroco. Mesmo assim Dom João VI assinou um decreto se comprometendo com o pagamento aos artistas franceses para que eles implantassem então a Escola Real de Artes e Ofícios. 

Prejudicaram ainda o trabalho da implantação da escola a morte do Conde da Barca, incentivador do projeto, em 1817, a morte do Lebreton em 1819 e a lenta aprovação e construção do edifício onde seria implantada a Academia. 

Foi apenas em dezembro de 1826, que foi finalmente inaugurada a Academia Imperial de Belas Artes. 

b) A disseminação do conhecimento  


Enquanto não se chegava ao consenso do que ensinar, como ensinar e ainda onde ensinar, os artistas franceses foram sendo encarregados de outros trabalhos na corte. Debret inicialmente pintou vários quadros de Dom João VI, e posteriormente de Dom Pedro I.

Dom João VI, Debret, Museu Nacional de Belas Artes


Após a inauguração,  Debret atuou como professor de pintura histórica na Academia Imperial de Belas Artes no Brasil, entre 1826 e 1831. No ano de 1829, promoveu a Exposição da Classe de Pintura Histórica da Imperial Academia das Belas Artes, que se tornou a primeira mostra pública em território nacional. Retornou à França, em 1831, e editou o livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, em três volumes, deixando um amplo registro sobre os costumes e a paisagem brasileira.


III. - Os Registros de Debret - Pranchas e Comentários


No seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Debret fez ao lado de cada prancha um registro histórico dos povos e costumes que ele retratava. Ele dedicou atenção especial às três classes representativas do País na ocasião: Os índigenas, os negros escravos, e os colonizadores portugueses com os seus costumes sociais no Rio de Janeiro; É através desses registros, e de outras missões similares,  que obtemos as melhores fontes de conhecimento para entendermos o Brasil da época 1816 a 1831; 

A seguir reproduzimos algumas pranchas com um resumo dos comentários de Debret associado com elas;


Grupo Indígena 


a) Família do chefe Camacã se preparando para Festa - Prancha 3

Entre as tribos selvagens brasileiras conhecidas pelo nome genérico de Camacãs, distingue-se a tribo dos mongoiós, herdeiros do caráter primitivo da célebre raça dos tapuias, de quem se mostram dignos descendentes pelo valor e pela astúcia. 

Retirados no  fundo das florestas sombrias onde foram esconder sua vergonha e seus desesperos, após a inútil mas corajosa e tenaz defesa de seu território invadido pelos portugueses, continuam, embora atualmente disseminados, sempre ciosos dos encantos da independência. 


Família Camacã se preparando para festa, Debret 

As florestas do sertão contíguas a Minas Gerais, são a sede principal dessa estranha tribo de guerreiros, e as margens do rio Piabanha servem de limite a seu território  às excursões dos pataxós, seus vizinhos. Aí é que se encontram as pequenas aldeias em que vivem , em estado de completa selvageria, alimentando-se de caça e não raro, tão pouco exigentes na escolha de seus alimentos que chegam a comer carne putrefata. Os mongoiós que atingiram, por assim dizer um primeiro grau de civilização, cultivam algumas plantas nutritivas; mas é principalmente nas aldeias civilizadas que se pode observar com interesse a construção de suas cabanas, feitas de taipa, bem como a solidez dos telhados de casca de árvore.

Todos sem exceção, pintam o corpo para se enfeitar durante os dias de festa, e nunca deixam de fazer essa toilette quando desejam receber com cerimônia os estrangeiros que os visitam e que encontram entre os mongoiós, ainda que pouco civilizados, um acolhimento amistoso.


b) Caboclos ou índios civilizados - Prancha 5

Na província do Rio de Janeiro dá-se o nome genérico de caboclo a todo o índio civilizado, isto é, batizado. Um exemplo é a aldeia de São Lourenço, fundada em 1567 por um governador português, e que constituiu-se, a princípio, da reunião de diversas tribos já civilizadas, às quais, poucos anos depois os jesuítas juntaram os goitacases que acabavam de catequizar.

Esses caboclos vivem de sua indústria de cerâmica de barro e diferentes espécies de esteiras feitas de caniços. Eles dedicam-se, igualmente com êxito, à navegação; alguns mesmo habitam com suas famílias o arsenal da marinha, empregando-se especialmente no serviço de canoas particulares do imperador do Brasil. 

A extraordinária atitude do índio flechador da prancha 5, bem demonstra de maneira completa e irrefutável a sua espantosa habilidade. 


Caboclo, Debret

Ficar assim de costas e lançar com todo o vigor uma flecha, de uma maneira quase incrível para nós, não passa para o caboclo de um simples exercício de destreza, oferecido à contemplação dos viajantes estrangeiros que o visitam.


c) Família Indígena em Movimento - Prancha 17


Os indígenas selvagens chamados de guaicurus encontram-se no Brasil, na província de Goiás, à margem do Uruguai, e também na província de Mato Grosso. Excelentes cavaleiros, são conhecidos pela sua habilidade em domar cavalos selvagens que pastam em liberdade nos campos dessa parte da América.

A principal ocupação dos guaicurus consiste no comércio das diferentes espécies de animais que eles reúnem nas vastas pastagens onde costumam construir suas habitações;

Sua antiga civilização fá-los parentes dos guaranis; Da mesma forma que eles, adotam um sistema de classes diferentes, três das quais bem distintas; a) nobres capitães e chefes de família que comandam soldados e escravos; b) soldados que só combatem a cavalo e estão sujeitos a disciplina militar; c) escravos, prisioneiros de guerra, que fazem toda espécie de trabalhos domésticos;


família indígena em movimento, Debret



d) Índios da Missão de São José - Prancha 19


É fácil reconhecer, à primeira vista, a delicadeza inata do gosto dos selvagens civilizados da missão de São José, tanto pela regularidade simétrica das linhas de sua tatuagem quanto pela engenhosa imitação, ingenuamente grotesca, da indumentária militar européia, cujas cores características aplicada na pele o músico selvagem lembra nessa pracha. 

Esses índios de civilização antiga, menos musicistas do que os guaranis, têm apenas o tambor como instrumento de dança; 

Índios da Missão São José, Debret


Em geral bem feitos, ágeis e alegres, além de inteligentes, conservam também um sentimento de pudor que inspirou às mulheres o luxo de fabricar saiotes guarnecidos de plumas; 


e) Pranchas 28 e 29 - Cabeças, Toucados e penteados de diferentes tribos


Da esquerda para a direita e de cima para baixo;

Cabeças: 1 - Iuri, selvagem, belicoso; 2 - Maxuruna; 3 - Iuripace; 4 - Mura; 5 - Bororeno, de uma selvageria temível; 6 - Iuma; 7 - Coroados; 8 - Botocudos; 9 - Mulher puri; 10 - cabeça de botocudo mumificada pelos pataxós; 11 - cabeça de puri, mumificada pelos coroados;





Toucados e Cabeças: 1 - toucado lembrando um capacete antigo; 2 - toucado com duas asas que lembram os capacetes saxões; 3 - toucado mais simples; 4 - ìndio miranha, notável pela mutilação da cabeça; 5 - Coroado da província de Goiás; 6 - Mandrucu, guerreiro reconhecido pelo grande número de listas sobre o corpo; 7 - Arara, nome tirado da ave; 8 - Bororó, selvagem que vive em terra aurífera; 9 - Iupuá. O arranjo do penteado lembra o estilo chinês;


IV - Referências


Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil - Jean Baptiste Debret - Edição Itatiaia

Wikipedia - Jean Baptiste Debret e Missão Francesa ao Brasil


V - Outras Publicações da Série


Com o intuito de tornar a leitura mais atraente, dividimos essa série em três partes:


O Brasil de Debret I - Grupo Indígena

O Brasil de Debret II - Grupo Escravos (a publicar)

O Brasil de Debret III - Sociedade e Costumes (a publicar)





2 comentários:

  1. amo a obra de Debret Rugenda e Tunay!!!!

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    1. Acompanhe nossa página que vamos publicar mais dois posts sobre Debret e depois iniciaremos uma série sobre Rugendas. Como publicamos sobre assuntos variados, sobre a nossa História do Brasil será um por semana.

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